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domingo, 1 de março de 2009

Policiais sem vocação


Mais da metade dos funcionários da PF, incluindo agentes e delegados, não teria dúvidas na hora de deixar a instituição para ocupar outro cargo público. Somente 24% dos servidores estão satisfeitos

Leonel Rocha Da equipe do Correio Braziliense




Uma pesquisa realizada entre os funcionários da Polícia Federal (PF), concluída em dezembro, revelou um risco para a sociedade: o desinteresse desses servidores pela profissão. Feita pela rede interna de computadores da instituição e sem a identificação do pesquisado ou de sua função, a enquete obtida com exclusividade pelo Correio mostra que 57,8% dos delegados, peritos, papiloscopistas, escrivães, agentes e pessoal administrativo pretendem deixar a carreira na primeira oportunidade. A amostra atingiu mais de 3,7 mil pessoas e constatou que a grande massa — 52,95% — aguarda ansiosa para fazer concurso em outra área da carreira pública. Além disso, 4,86% dos funcionários sonham com uma chance melhor até no setor privado.

Mesmo classificado no topo da lista de cargos estatais, com bons salários, estabilidade no emprego e prestígio por serem considerados carreira imprescindível ao funcionamento do Estado, o ofício de policial federal não encanta mais. Pouco mais da metade dos 14,4 mil servidores da PF almeja uma nova profissão, de preferência bem longe das delegacias. Somente 24,14% dos pesquisados estão inteiramente satisfeitos com a carreira e pretendem continuar nela até a aposentadoria. Outros 18% permaneceriam na policia, só que em cargo distinto (veja tabela). “A questão é a vocação. A pesquisa mostra que há pessoas em trânsito na Polícia, se preparando para fazer concursos para juiz ou promotor. Elas têm um outro sonho, mas ficam aproveitando o bom salário”, admite o diretor geral da PF.

De 2004 até o fim do ano passado, a polícia realizou dois concursos para agentes, um nacional e outro regional. Nesse período treinou na Academia Nacional de Polícia 1.866 pessoas. Desse grupo, 471 pediram exoneração nos últimos quatro anos, deixando abertas 25,2% das vagas que deveriam estar inteiramente ocupadas. Fenômeno parecido aconteceu com os escrivães, só que em proporção muito maior. Nos últimos quatro anos a PF abriu 705 vagas para a função, mas 411 profissionais dessa área desistiram da profissão logo depois do curso e de trabalhar pouco tempo. Representaram 58,2 % de desistência.

É um exército de servidores treinado em uma das melhores escolas de polícia da América Latina que troca a PF por outra função pública ou pelo setor privado. “A PF evoluiu em termos de salário, é uma instituição respeitável e tem um trabalho gratificante, mas também atraiu o profissional de concurso em razão do elevado nível de escolaridade exigido nos exames. Não posso ter 50% em trânsito na Policia, o cidadão não merece isso”, reconhece o diretor geral, Luiz Fernando Corrêa.



Mudança

Um dos descontentes com o trabalho na PF é o escrivão Flávio Werneck. Aos 33 anos e na polícia há mais de sete, o advogado conseguiu ser transferido para a assessoria do Ministério da Justiça. Está se preparando para fazer concurso para promotor público. Se passar, vai ganhar o dobro do que recebe hoje. “Tenho capacitação e conhecimento jurídico, mas não utilizo no meu trabalho. Entrei na polícia com garra e esperando ajudar a fazer um País melhor, mas com o tempo fui perdendo o interesse porque fui assumindo atribuições menores”, lamenta Werneck.

Outra parte da enquete mostra quadro preocupante. Mais de 42 % dos policiais e agentes administrativos classificam o trabalho da Corregedoria da instituição “incompleto, com caráter apenas disciplinar e pouco correicional”. Outros 30% apontam o setor como ineficiente e sem efeitos disciplinares. Mais de 14,2% definem a Corregedoria como “deficitária” (veja tabela). Segundo Corrêa, uma outra pesquisa interna foi realizada pela CNT/Sensus mas ainda não concluída mostrou que 70% do efetivo da PF estão satisfeitos com o emprego, mas o diretor não divulgou o conteúdo integral do levantamento.

Quem consegue ser aprovado no rigoroso concurso para agente, por exemplo, começa a trabalhar com salário inicial de R$ 8 mil mensais. No final da carreira poderá ganhar até R$ 13,5 mil, mais do que fatura alguns níveis da carreira diplomática, e sem a necessidade de ser poliglota. O caso dos delegados é ainda mais confortável.

Nesse cargo os rendimentos começam com R$ 9 mil e no final da carreira chegam a R$ 19 mil mensais. Ganhos maiores do que recebe um ministro de Estado, que tem vencimento de R$ 12 mil. Com soldos mais modestos, o servidor administrativo da PF recebe próximo de R$ 4 mil. Nada mal para quem não precisou ter cursado universidade e passa a ter estabilidade e salário médio acima do pago no setor privado ou em outras áreas estatais.



Troca por outro emprego

A PF é uma instituição cara e responsável pela apuração dos crimes federais. O orçamento de 2008 foi de R$ 3,6 bilhões, o mesmo previsto para este ano. Só em custeio foram gastos R$ 350 milhões no ano passado.

Mesmo com o reforço no caixa e uma autorização do Ministério do Planejamento para preencher 3 mil vagas nos setores administrativos, a direção da instituição não iniciou a seleção. Teme a repetição de um fenômeno que ocorreu entre 2004 e 2005, quando 60% dos servidores aprovados no concurso e contratados para substituir os funcionários temporários pediram exoneração porque tinham optado por outros empregos.

Dos 14 mil policiais, 350 são mestres, doutores e até pós-doutores. Esse grupo, formado majoritariamente por peritos, compõe uma massa crítica que aumenta o nível de questionamento das ações administrativas da instituição.

Além disso, os contratados pela polícia fazem comparações com os colegas de outros segmentos públicos e descobrem que, com a mesma escolaridade, podem ganhar um pouco mais, trabalhar em áreas onde não é preciso dar plantão, trabalhar de madrugada, perseguir traficante perigoso ou investigar poderosos.

BRUCE LEE - OPERAÇÃO DRAGÃO

De olho em 2010, Lindberg Farias vira radialista de programa nordestino



Dezenove dias depois de iniciar o segundo mandato como prefeito de Nova Iguaçu (Baixada Fluminense), o petista Lindberg Farias, 39, começou a investir em um novo projeto: viabilizar sua candidatura ao governo do Rio de Janeiro em 2010.De olho nos 3 milhões de nordestinos que moram no Estado, ele se tornou um dos apresentadores do programa "Nação Nordeste", veiculado pelas rádios Metropolitana AM e Bandeirantes AM."O objetivo é criar um canal de comunicação com os nordestinos e entre eles, além de divulgar a cultura do Nordeste", afirma Lindberg.


Ele admite que pode "render dividendos eleitorais", mas diz que "não é a prioridade". Anthony Garotinho, governador entre 1999 a 2002, também foi beneficiado pela exposição que teve como radialista.O ex-líder estudantil -famoso por liderar os caras-pintadas em protestos contra o presidente Fernando Collor, em 1992- acha que tem duas vantagens em relação a possíveis concorrentes em 2010: "Sou nordestino [de João Pessoa, na Paraíba] e prefeito de Nova Iguaçu".Segundo ele, os conterrâneos, "sejam ricos ou pobres", reconhecem-no pelo sotaque e se identificam com ele. "Nordestino vota em nordestino."


Outra vantagem é a parceria com o governo federal. Até o próximo ano, Nova Iguaçu deve receber mais de R$ 300 milhões para obras do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) -a maior quantia proporcionalmente no Estado.O presidente Luiz Inácio Lula da Silva dificilmente apoiará Lindberg caso o governador Sérgio Cabral Filho (PMDB) dispute a reeleição. Mas o governador sonha em ser candidato a vice de Dilma Rousseff, o que pode abrir portas para Lindberg.


O programa "Nação Nordeste" foi criado há mais de dez anos pelo cantor e autor de cordel Marcus Lucenna, organizador da feira de São Cristóvão -o principal reduto de nordestinos do Rio. Nascido em Mossoró (RN), ele conheceu Lindberg em 1994, quando defenderam a feira, ameaçada de remoção.Lucenna diz que com Lindberg a audiência do programa aumentou "porque o povo gosta de estar perto do poder". No programa acompanhado pela Folha, em 18 de fevereiro, o prefeito declamou poesias do paraibano Augusto dos Anjos, divulgou resultados de campeonatos estaduais do Nordeste, recebeu elogios e anunciou uma descoberta: "Nova York foi fundada por nordestinos". Referia-se a holandeses que, expulsos de Recife no século 17, foram para os EUA.


FSP

WASHINGTON REIS E O DETRAN


O ex-prefeito de Duque de Caxias, Washington Reis (PMDB-RJ), ao lado de sua esposa Danielle Reis,no Carnaval. Observem seu chapéu(Seta), será ele nomeado presidente do DETRAN?

LE MONDE:O eclipse esperado dos "petro-tiranos"


Foi no verão passado. Os três tiranos ainda enchiam o peito de orgulho, debruçados sobre um barril de petróleo a mais de US$140. O presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad e seu colega venezuelano Hugo Chávez culpavam o "imperialismo" dos Estados Unidos - o primeiro, em nome da revolução islâmica, e o segundo, da bolivariana. O chefe do governo russo, Vladimir Putin, invadia a Geórgia antes de reconhecer unilateralmente a independência da Ossétia do Sul e da Abcásia.

Há cinco anos esses "petro-tiranos" apoiavam seu poder político e a estabilidade de seu regime sobre a redistribuição das colossais receitas obtidas com o ouro negro, do qual esses países são os principais exportadores. Eles não desistiram dessas ambições - regionais para Caracas e Teerã, mundiais para Moscou -, mas eles não possuem mais os meios. Por enquanto, pelo menos. A demanda por petróleo cairá em 2008-2009 pela primeira vez em 25 anos, e seu preço corre o risco de permanecer por um bom tempo abaixo de US$40.

Esse reverso da fortuna enfraquece os três dirigentes, tanto no exterior como no interior. Eles tiveram de adotar um tom mais conciliador em relação a Washington. É verdade que a chegada de Barack Obama à Casa Branca acalmou um pouco os inimigos jurados da administração Bush. O presidente iraniano se diz "pronto" para discutir diretamente com o Grande Satã americano e Chávez pede por "novas relações" com seu poderoso vizinho, ainda que ambos clamem por um diálogo "entre iguais". Apenas Putin parece se firmar em uma linha dura, ao mesmo tempo em que se preocupa com a fuga dos investidores e dos capitais estrangeiros.

Convencidos de que o petróleo caro era um fato intangível, eles haviam elaborado seus orçamentos de 2009 sobre um preço de barril duas vezes mais alto que o de hoje. Eis que eles se confrontam brutalmente com a recessão e pressões para que lancem mão de suas reservas de divisas, visando financiar suas políticas sociais. No ritmo em que andam as coisas, elas podem se esgotar até o fim de 2010. Eles também pagam por sua má gestão e sua incapacidade de preparar o futuro. Ahmadinejad, Chávez e Putin não aproveitaram os anos de petróleo caro para reduzir a dependência de suas economias dos hidrocarbonetos, principal fonte de divisas, de atividade e de riqueza. Mas, paradoxalmente, eles não investiram o suficiente nas infraestruturas energéticas para cuidar dessa galinha dos ovos de ouro, ao contrário do que fizeram as monarquias do Golfo.

Esses dirigentes chegaram a fazer de tudo para dissuadir as companhias internacionais de lhes trazer financiamento e know-how. Teerã desenvolveu seu programa de energia nuclear, desencadeando um embargo internacional sobre a importação de equipamentos estratégicos. Moscou criou uma insegurança jurídica permanente para reduzir o lugar dos grupos petroleiros estrangeiros (Shell, BP...). Caracas nacionalizou a torto e a direito e afugentou algumas multinacionais ocidentais.

Tantos maus cálculos. Suas jazidas podem ser gigantescas (gás iraniano nas águas do Golfo, hidrocarbonetos da Sibéria, óleos pesados do Orinoco venezuelano), mas o custo para explorá-las é muito alto, e elas requerem tecnologia ocidental. A produção está estagnada ou recua nesses países: a Venezuela bombeia menos petróleo do que em 1998, ano da ascensão de Chávez ao poder; o Irã produz 40% menos do que na época do Xá; e a Rússia conseguiu uma plataforma de produção em 2008. Dos três membros do trio, que estreitaram seus laços militares e econômicos, Ahmadinejad é o mais vulnerável. Abandonado por certos conservadores e ameaçado pelo ex-presidente reformista Mohammed Khatami, sua reeleição em junho foi comprometida por um saldo catastrófico. Ele, que havia prometido depositar o dinheiro do petróleo na mesa dos pobres (uma grande parte dos 75 milhões de iranianos), só trouxe a inflação. A economia desmoronou e, com ela, a popularidade do ex-oficial da Guarda Revolucionária.

A recente vitória de Chávez no referendo, que lhe permite se representar até o fim de seus dias, é uma ilusão. Ainda que ele possa mostrar um bom saldo em sua luta contra a pobreza, a economia vai mal, e ele pagará o preço quando o caixa do Estado estiver vazio. Quanto à popularidade de Putin, ela ainda resiste à crise, mas a hora da verdade soou após oito anos de um crescimento forte (8%) e ininterrupto. Será que esses autocratas se esquecerão de sua antiga hostilidade pelo Ocidente? Isso é incerto. No Irã, a retirada do programa nuclear é um pré-requisito para qualquer política de crescimento econômico. Mas na Venezuela, o leilão das novas concessões petroleiras, em maio, será um bom teste para o estado de espírito de Chávez. E os dirigentes russos não desistiram de recriar parcerias industriais com empresas americanas ou europeias.

Se ela não se prolongar, a crise pode, a médio prazo, jogar a favor desses regimes. Ao criar, ainda que involuntariamente, tensões sobre o fornecimento de petróleo por seu subinvestimento, eles prepararam o terreno para um novo aumento de preços quando a demanda voltará no fim da recessão, talvez a partir de 2010. O valor do barril poderia, então, subir a US$80 ou US$100, e a abundância de petrodólares pode voltar a encher o caixa. Talvez esses Estados reencontrem seu poder perdido. E seus dirigentes também.